[A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (NIGHT OF THE LIVING DEAD, 1968)] Cotação: • • • • •O começo de tudo: filmado em preto-e-branco, de maneira independente e com um orçamento merreca (11 mil dólares), o clássico de Romero virou cult e foi um sucesso de bilheteria já na época do seu lançamento (estima-se que tenha faturado mais de 30 milhões de dólares nos cinemas do mundo todo).
Claustrofóbico, não se preocupa em dar explicações ou apresentar os personagens, e já começa com mortos-vivos atacando um casal de irmãos que visita um cemitério. A garota, Barbra (Judith O'Dea), consegue escapar a refugia-se numa casa de fazenda no meio do nada, onde outras pessoas também irão tentar se defender do ataque crescente de zumbis. Em plenos Estados Unidos dos anos 60, Romero teve a coragem de tocar num tema como o racismo de maneira extremamente sutil: embora o protagonista, Ben (Duane Jones), seja um homem negro, em nenhum momento do filme a raça do personagem é levada em consideração, nem mesmo quando ele se desentende com um rival branco, Cooper (Karl Hardman). É na cena final que o diretor contextualiza a discriminação racial, quando um grupo de caipiras atira sem pensar duas vezes na cabeça do herói, tomando-o como zumbi (embora ele não seja), e queimando-o em seguida numa fogueira. A imagem de um negro inocente sendo abatido de forma injusta pelas "forças da lei" (brancas, claro) é a cara dos anos 60, remetendo aos linchamentos de negros promovidos em muitas cidades do interior do Estados Unidos naquela mesma época, além do assassinato do ativista negro Martin Luther King, acontecido justamente em 1968. Com A Noite dos Mortos-Vivos, Romero ainda assinala o fim daquele horror mais clássico (em que o Bem vence o Mal e os monstros são figuras trágicas, como Drácula e Frankenstein) e o início do horror moderno, ensopado de sangue e violência explícita, e com heróis nada perfeitos, como Ben, cujas ações vão progressivamente matando todos os personagens que o cercam, ao invés de salvá-los.
Em 1968, é bom lembrar, o senador Robert Kennedy foi morto e Richard Nixon elegeu-se presidente dos Estados Unidos, mergulhando a nação no inferno da Guerra do Vietnã. O próprio maquiador Tom Savini, colaborador habitual do diretor, não pôde trabalhar nos efeitos do filme porque foi alistado para lutar do outro lado do mundo. Assim, A Noite dos Mortos-Vivos traz este clima de desesperança estampado da primeira à última cena, com uma bucólica e inofensiva casa de fazenda tornando-se uma prisão e um túmulo para seus personagens, e até uma instituição sagrada, a família, revelando-se um perigo iminente (graças à filha que se transforma em zumbi e mata os próprios pais).
Em 1990, A Noite dos Mortos-Vivos ganhou um competente remake dirigido pelo maquiador Tom Savini, que manteve-se fiel ao original, embora tenha atualizado a personagem de Barbra: se no original ela ficava praticamente catatônica, sem reação diante da ameaça desconhecida (um reflexo do papel da mulher na sociedade nos anos 60), na refilmagem ela já aparece como "mulher forte", pois os próprios filmes posteriores de Romero trazem heroínas mulheres.
[Fonte: cito aqui este excelente site chamado Boca do Inferno. Parabéns pelas críticas, notícias e afins. Um belo site e que recomendarei sempre. Além de ser uma grata surpresa pra mim, e que sem pensar duas vezes, reproduzi aqui no All World Zombies]