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sexta-feira, 2 de março de 2012

Revisitando os filmes de zumbis de George Romero - Terra dos Mortos (2005)

[TERRA DOS MORTOS (LAND OF THE DEAD, 2005)] Cotação: • • •

Nos 20 anos que separam Terra dos Mortos de Dia dos Mortos, aconteceu tanta coisa no mundo e nos Estados Unidos que Romero poderia muito bem ter feito um filme tão longo quanto O Despertar dos Mortos. Optou por uma metragem convencional (97 minutos), mas isso não significa que tenha pouco a dizer. Produzido por um grande estúdio, a Universal, é o longa de zumbis mais caro do diretor, com orçamento de 15 milhões de dólares.

A história se passa algum tempo depois de Dia dos Mortos: os zumbis putrefatos continuam dominando o mundo, mas já existe uma sociedade feudal na forma de uma luxuosa torre com apartamentos para ricaços, chamada Fiddler's Green. O idealizador do projeto, Paul Kaufman (Dennis Hopper), manda e desmanda nos sobreviventes que ali vivem, como um autêntico ditador. Fiddler's Green é protegida por cercas eletrificadas e um rio, que impedem o avanço dos mortos, permitindo que os seus abastados habitantes possam tranquilamente fazer suas compras no Shopping Center do local (uma auto-citação a O Despertar dos Mortos). Mas é claro que alguém precisa trabalhar pesado para garantir o consumismo/materialismo dos ricos, e esta tarefa cabe às classes pobres que moram no entorno da torre. Seduzidas com a (falsa) promessa de um dia ascenderem à classe alta e poderem morar em Fiddler's Green, homens como Riley (Simon Baker), Charlie (Robert Joy) e Cholo (John Leguizamo) arriscam o próprio pescoço saindo das fronteiras seguras da cidade para enfrentar os zumbis e recuperar mercadorias e bens de consumo no mundo devastado. Isso até "Big Daddy" (Eugene Clark), um dos milhares de zumbis das cercanias, ganhar uma espécie de consciência, liderando seus companheiros, como um autêntico líder sindical morto-vivo, para invadir a torre e aniquilar seus habitantes.

Romero retoma vários temas já trabalhados nos três filmes anteriores: os ricaços vivem uma vida despreocupada e feliz, sem pensar nos zumbis, enquanto há dinheiro e produtos nas lojas (como em O Despertar dos Mortos), e o morto-vivo consciente que lidera a revolução é negro, quase como uma vingança pelo fato do igualmente negro Ben ser assassinado no final de A Noite dos Mortos-Vivos. Além da metáfora óbvia para a luta de classes e para o sonho impossível dos menos favorecidos de "vencer na vida" e conquistar seu espaço em Fiddler's Green, os zumbis separados dos humanos pelo rio e pelas cercas lembram novamente a questão da imigração ilegal (já abordada levemente em O Despertar dos Mortos), remetendo à situação na fronteira dos EUA com o México.

Terra dos Mortos também é um perfeito retrato dos EUA pós-11 de setembro. Tanto que o principal perigo não são os mortos-vivos que cercam Fiddler's Green, mas sim a ameaça do renegado Cholo de explodir a torre com mísseis (uma referência nada sutil ao ataque ao World Trade Center). Kaufman não pretende ceder e manda um esquadrão para acabar com Cholo – "Não negociamos com terroristas", alega ele, bem ao estilo George W. Bush. Até mesmo uma excelente ideia do filme, os coloridos fogos de artifício usados para "distrair" os zumbis, que ficam hipnotizados olhando para o céu, torna-se uma alegoria óbvia à intervenção militar norte-americana no Iraque em 2003, quando as explosões dos mísseis ianques em Badgá, transmitidas via CNN, "distraíam" a zumbificada população norte-americana, que dessa forma não reparava nos problemas sociais e políticos da sua própria nação. Terra dos Mortos dividiu opiniões na época do seu lançamento, mas é um filme que, mesmo com problemas evidentes, cresce a cada revisão – e parece ainda melhor comparado com os dois filmes seguintes de George A. Romero. Não foi refilmado (ainda!).


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