sexta-feira, 2 de março de 2012

Revisitando os filmes de zumbis de George Romero - O Despertar dos Mortos (1978)

[O DESPERTAR DOS MORTOS (DAWN OF THE DEAD, 1978)] Cotação: • • • •

Não é à toa que o segundo filme de zumbis de Romero, produzido pelo italiano Claudio Argento, é considerado um dos grandes clássicos do horror de todos os tempos: além do fato de ser um terror competente e ainda mais sangrento que o original (Tom Savini voltou da Guerra do Vietnã e jogou na tela, em forma de maquiagem, os horrores que testemunhou no conflito), toda e qualquer temática social da época é abordada pelo roteiro em formato de alegoria, do consumismo excessivo ao militarismo, da desinformação da imprensa aos imigrantes ilegais. A trama se passa alguns dias ou poucas semanas após o despertar dos mortos do original – os zumbis estão ainda nos primeiros estágios da decomposição, com uma coloração cinza no rosto. A situação começa visivelmente a sair do controle, principalmente nas grandes cidades, como a Philadelphia, onde um casal de jornalistas, Stephen e Francine (David Emge e Gaylen Ross), resolve fugir com o helicóptero da emissora de TV. Unindo forças com dois soldados da SWAT, Peter e Roger (Ken Foree e Scott H. Reiniger), eles chegam a um enorme Shopping Center afastado da cidade, onde resolvem fazer uma barricada para proteger-se dos zumbis.


Tudo que podem querer é encontrado nas lojas do Shopping, de comida a armas, de eletrodomésticos a roupas, mas a chegada de uma quadrilha de motoqueiros saqueadores se revela uma ameaça bem mais perigosa do que a horda de mortos-vivos que insiste em se concentrar ao redor do local. O materialismo é o grande tema de O Despertar dos Mortos: tanto os poucos sobreviventes vivos quanto os mortos-vivos ficam circulando pelo Shopping Center repetindo praticamente os mesmos movimentos (entrando e saindo de lojas, subindo por escadas rolantes e elevadores, cambaleando sem rumo de um lado a outro), como se não houvesse diferença entre eles. Mortos ou vivos, todos se reúnem no templo do consumo, uma referência explícita ao materialismo sem noção da América do período, quando não importavam os gigantescos problemas sociais da nação, desde que houvesse dinheiro para comprar um novo conjunto de sofás ou um moderno aparelho de som. Isso fica evidente na fala de Stephen sobre os zumbis que insistem em tentar entrar no shopping: "Isso é uma parte do que eles eram, um lugar importante em suas vidas". Já para os vivos, enquanto houver brinquedinhos e lojas de portas abertas para aproveitar, a situação do mundo não interessa – mesmo que não existam mais laboratórios para revelar as fotografias feitas com uma câmera de último modelo. Num certo contexto, ainda, os vivos de O Despertar dos Mortos representam as classes de alto poder aquisitivo, que se trancam no Shopping rodeadas por seus pertences e tentam impedir a invasão dos zumbis, representando os pobres e miseráveis.

Como em A Noite dos Mortos-Vivos, este segundo filme também tem um herói negro (Peter), mas o contexto do racismo foi transferido para uma outra minoria: os latino-americanos. No início do filme, um batalhão da SWAT tenta controlar uma invasão de mortos-vivos num condomínio de baixa renda, cujos habitantes são predominantemente latinos, e um dos policiais – transtornado, mas visivelmente racista – sai explodindo cabeças sem fazer distinção entre mortos e vivos (um comportamento fascista inerente à época, quando havia forte preconceito contra a "invasão" de imigrantes ilegais nos Estados Unidos).

Finalmente, sobram farpas para os militares e para a imprensa: na primeira metade do filme, ambas as instituições minimizam a ameaça como se tivessem tudo sob controle, mas logo as transmissões de rádio e TV começam a ficar confusas, divulgando informações equivocadas sobre centros de apoio a sobreviventes, e a presença do exército não é suficiente para controlar o caos. O filme termina sem propor uma solução para o impasse e sem deixar qualquer esperança para os seus sobreviventes, num mundo que tende a piorar. Também ganhou uma refilmagem, Madrugada dos Mortos, de Zack Snyder, em 2004, que diverte deixando de lado qualquer tentativa de crítica social para apostar unicamente na ação (a subtrama da invasão de motoqueiros ao shopping, por exemplo, foi completamente deletada).


[Fonte: Boca do Inferno]

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